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14.11.08

ESCREVIVENDO - PONTO DE ENCONTRO DE "AUTORES" DO COTIDIANO


Em agosto de 2006, nem me lembro como, comecei a freqüentar a Casa das Rosas atraída em um primeiro momento pelo espaço que representa uma época e um homem que realmente “fez” São Paulo.

A casa das Rosa é um projeto de Ramos de Azevedo e ele a projetou e construiu como presente de casamento para sua filha na década de 30, Hoje ela é um espaço de literatura e poesia Haroldo de Campos.

Em segundo momento me atraiu a oficina oferecida, que tinha o sugestivo nome de ESCREVIVENDO, nome eufônico, significativo e chamativo.

O terceiro elemento que me manteve freqüentando a Casa das Rosas e o ESCREVIVENDO foram as figuras de Karen e Charles se completando no encaminhamento dos temas e questões surgidas. Como se isso não bastasse, os participantes – em numero de 17 nessa primeira oficina – eram todos envolvidos, interessados, com bom nível cultural, com muito a oferecer em termos de conhecimentos, criatividade e vontade de trabalhar.

Ao primeiro módulo sobre temas básicos - ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO TEXTO, seguiram-se outros sempre com temas interessantes. Sobre CONTOS, CRONICAS... muitos autores famosos sendo comentados e discutidos, muitos textos escritos e lidos pelos participantes num compartilhar de idéias, conteúdos e modos de expressão.

O interessante módulo sobre INTERTEXTUALIDADE foi uma sucessão de descobertas literárias. E no módulo SERES IMAGINÁRIOS, a imaginação correu solta e livre nas narrativas incríveis dos participantes -autores.

Seguiram-se os módulos de RESENHAS, MEMÓRIAS, MEMÓRIAS DE AMOR e MEMÓRIAS ERÓTICAS, este ultimo ainda agitando as manhãs de sábado.

E agora o ESCREVIVENDO alçou vôo e foi pousar no Museu da Língua Portuguesa com seu filhote o ESCREVIVENDO MEMÓRIAS DE SÃO PAULO – UM PRIMEIRO CONTATO.

Tão apaixonante como a Casa das Rosa, o espaço Estação da Luz é por si só um lugar encantado. Estar lá já é um privilégio. Poder agora eu também participar das oficinas é alcançar sonhos.

Nestes seis encontros lá na Luz, com o cenário frontal do Jardim de muitos tons de verde a nos distrair, tivemos a oportunidade de, aos poucos tomar posse do espaço como nosso. Fincamos já nossas raízes e o tempo necessário para a gestação de novos encontros só as tornara mais fundas e mais forte.

2009 está batendo á porta e certamente ela se abrirá com novos ESCREVIENDOS – Casa das Rosas – Museu da Língua Portuguesa, agora sob a égide da POIESIS que cuida dos dois.

Esperamos por vocês na Casa das Rosas - ali mesmo na Avenida Paulista 37 e no Museu da Língua Portuguesa, lá na Estação da Luz, que todo mundo conhece e sabe onde é. Tudo em São Paulo, naturalmente.

8.10.08

SER O NÃO SER









Por Roberto Dupré





São quatro e meia de uma tarde interminável de terça- feira.
(E a semana está só começando)
O jovem narciso atravessa o salão completamente nu. Mas ninguém nota
O velho cometa atravessa o infinito. Mesmo brilhando, sabe que vai de lugar algum para lugar nenhum.
Apenas vaga pela imensidão. E ninguém vê.
As covinhas dela são lindas.
Mas ela vê através de mim, como se eu fosse uma janela.
Quero voltar para o passado: só lá tenho futuro.
Sou mais uma piada sobre o não ser.
(E a semana está apenas começando)
( outubro de 2008)

6.10.08

PAS DE DEUX


Por Roberto Dupré

É impossível ser borboleta sem
ter sido larva, com toda sua feiúra
Clarice Lispector


É tarde da noite. E você que sempre dormiu como anjo, agora seu sono já não é tão tranqüilo como antes. O cenho franzido. Não há paz sob as pálpebras.
Onde foram parar aquelas noites felizes e coloridas, quando eu roçava sua nuca com os lábios e você sorria e se aninhava nos meus braços?
Nem posso pedir, de volta, os seus sonhos.
Nem os meus. (outubro de 2008)


Las horas de la vida
Las cartas del silencio
La sombra y sus desígnios
Diga qué juego
Para seguir perdendo
Neruda

4.10.08

UMA TARDE EM MAIO


por Roberto Dupré


Ilimitado, o amor às vezes se limita
Proibido é o amor que às vezes se liberta,
Ele quis morrer para arrasar a morte e voltar
Affonso Romano de Sant’anna


Foi tão louco como o big-bang. Antes, uma excessiva acumulação de energia. Depois, uma explosão. Não há como dizer. Só os que experimentaram, sabem. Talvez, por isso haja tanto chavão oco de sentido. O que foi que vi primeiro em você? Nada em particular. E, simultaneamente tudo: o corpo tentador, os olhos provocantes, as pernas cruzando-se em perdições. O que vi em você foi a vida como nunca antes. Trocávamos longos olhares, cheios de dragônicas vontades. Nosso aproximar foi lento, como devem ser os prelúdios. Um dia, sentei-me ao seu lado. E cada nervo das minhas pernas sentia cada nervo das suas coxas. E vice-versa. Então minha mão tocou bem de leve, seu joelho. Nossos olhos se encontraram e ficaram congelados uns nos outros. Foram zilhões de segundos o caminho da minha boca até a sua boca. Tudo se fez cósmico: o tempo, o espaço, o palato celestial onde depositei, atordoado, minha língua. Flutuamos, feito astronautas no vazio de tudo, Que horas eram? Jamais saberemos. O palato se estendia ao longo da minha língua de tantas fomes, de indescritíveis sedes. Formou-se um lago no canto da minha boca. E minhas narinas se encheram com o odor das damas-da-noite. Onde estávamos? Essa questão pouco importa.
Aquele beijo, o primeiro, está aqui. Está onde eu estiver.
Por isso, quando o anjo da Morte me encarar, rirei dele: em vida, experimentei o Paraíso na doçura do seu amor e os sofrimentos do Inferno na ausência do seu beijo.
Só os deuses sabem o quanto essa memória do beijo infindo, o sabor dele, e o cheiro do seu corpo, me orientam.
Para todo o sempre. E depois disso, também. (Agosto de 2008)

Amor não é se envolver com a pessoa perfeita,aquela dos nossos sonhos.Não existem príncipes nem princesas.Encare a outra pessoa de forma sincera e real, exaltando suas qualidades, mas sabendo também de seus defeitos.O amor só é lindo, quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser. Mário Quintana

30.9.08

Alice

Por céu anda Ana

Ana cai no escuro anda

Luanda, para onde vai

Não se esconda

Fina boneca de porcelana

28.9.08

Café com pão


Carmem acorda muito cedo, por volta das 05h00. Joga água fria no corpo, maldiz-se, apronta-se, corre até a padaria, volta num fôlego. Na cozinha, sai um samba assim sem compasso, atravessado no bater de panelas e no tilintar de xícaras e talheres. Dali a pouco, vem o cheirinho de café fresco coado no pano. A criançada (Vinicius, 12 e Ana Luiza, 10) chega na cozinha arrastando os pés com os olhos ainda grudados de remela. A mãe, como faz a mãe-gata, carrega um por um e lava-lhes bem os rostos, até ficarem corados. Os olhos, agora bem abertos, contrastam com as bocas fazendo bico. Só acalmam quando a mãe os faz sentar e põe diante de cada um, uma xícara de café com leite bem adoçado e pão quentinho com a manteiga derretendo. Que delícia! Fora da casa, a manhã é fria; dentro, a barriga está quentinha. Os três sorriem por alguns segundos e então, pulam da cadeira quando escutam a buzina da perua escolar da Prefeitura. “Putz! Todo dia a mesma coisa!”, lamenta-se a mãe. Saem mastigando, deixam beijos amanteigados. Carmem, enfim, se permite um suspiro. Ai, vida! Mulher, mãe e chefe de família. O pai preferiu ganhar o mundo. Tomara não tenha se perdido, pensa.

Rápido, afugenta o pensamento. Deixa a casa às 06h30 e o almoço das crianças sobre o fogão. Encaixa-se no trem, pendura-se na lotação e, milagrosamente, aquela santa mulher chega pontualmente às 07h30 na Cafeteria Paulista, seu local de trabalho. Trata de limpar e ajeitar tudo. As colegas ajudam sem vontade, com leviandade. Carmem não se importa pois as trata como filhas crescidas. Às 08h00, abre a loja e dali a pouco, os clientes (adora chamá-los assim, parece tão profissional) vão chegando. Carmem fica eufórica, abre aquele sorriso largo, satisfeito. Cuida de preparar o Expresso com muito jeito, acertando bem o pó. “Com açúcar?”, pergunta. “E com afeto”, responde o cliente quase rindo. Ah, se tivesse coragem, se meus dentes fossem perfeitos e se isso não fosse só uma ilusão, sorri pensativa. Os cafés vão saindo e aquele aroma a tomar conta de tudo. Atraía mais e mais gente. “Me vê mais um café”. “O meu com leite”. “Dois cappucinos, por favor”. E Carmem se desdobrava e o cheiro a estimulava. A certa hora do dia não distinguia mais o cheiro do café, do cigarro, dos perfumes, do seu próprio suor. Enxugava a testa mas o rosto moreno e quente ainda brilhava. Num canto da loja, via fumaça de cigarro subindo com o vapor do cafezinho. As pessoas ficavam envoltas naquela névoa, parecia estar sonhando. Risos. Blá, blá, blá. Um zum, zum, zum. Um diz que diz. Uma zoeira, uma animação. A tarde cai e a luz se difunde. O pôr-do-sol tinge os olhos de amarelo. Os ânimos arrefecem. A Cafeteria vai esvaziando. O café derramado no balcão faz o guardanapo parecer jornal velho. Carmem lembra então de uma história que ouviu de um de seus clientes. Ele lhe disse que São Paulo fora o maior Estado produtor de café do país no século passado e retrasado. Chegava-se a jogar o excedente de café nos rios (contava a parte da história que sabia porque sabia que ela não sabia de nada). Carmem ficava admirada. Naquele tempo, São Paulo era diferente e aqui em frente, na Avenida Paulista, passava até bonde, dizia, concluindo a história. E que lindo devia ser isso, ela imaginava. E a iluminação deveria ser igual àquela da Praça da Sé, aqueles postes a imitar luminárias a querosene, luz quente. Que romântico. E aquele final de tarde dava uma melancolia. Aquele casalzinho (sempre havia um) na mesinha do canto, na penumbra, mãos unidas, dedos entrelaçados, roçando o rosto um no outro, tão bom de ver, apesar da garçonete suspirar. Ô, vida! Quando o coração se comprimia muito, se refugiava no quartinho e ia com cuidado, com carinho, bebericar um cafezinho. Esse era seu cotidiano, sua rotina.

A noite chega, enfim, e Carmem segue em câmara lenta, baixa as portas, pega as chaves, guarda-as na bolsa e parte. Pisa macio na Paulista. Inala o ar fresco da noite. Deixa o corpo cansado seguir leve, solto. Ninguém olha pra ela, mesmo assim sente-se incrivelmente bela. E como é bom ser mulher nessas horas. Que volúpia. Queria poder pegar o bonde. Usaria, então, um lindo chapéu e luvas e, por certo, encontraria um cavalheiro que lhe tirasse o chapéu. Sorriria fingindo encabular-se. Seria irresistível. Adorável. Carmem flutuava enquanto sonhava histórias. E assim, sem perceber, punha os pés em casa. Se pudesse, escreveria. Mas não se dava com as letras, faltava-lhe estudo, nem tinha o básico. Fazia do café sua arte. Expressava-se bem. A loja sempre cheia e animada. A casa pequena, bem arrumada; as crianças coradas, amorosas. Carmem era forte, corajosa, abraçava a tudo. Mas acima de tudo era mulher e por isso havia em seu olhar uma tristeza, uma abnegação. Tinha como paradoxo um sorriso fácil, dourado. Rico. Faltava-lhe um poeta, uma canção.

(Sandra Sirikaku)

25.9.08

Amor e desamor, por Bruna Nehring

“Há quem ama, quem ama muito, quem ama mais.
E quem ama melhor”. Jean Cocteau (1889-1963?) poeta, escritor, cineasta, dramaturgo e cenarista francês. Para Jean Marais, ator.
Foi como uma tempestade, poucos minutos de um frenético agitar de corpos, de curtos suspiros projetados ao teto, uma procura quase raivosa de alcançar o nada. Depois, o silêncio. Ela, imóvel, olhos fechados na penumbra do quarto. Ele acaricia os cachos morenos da mulher e volta a chegar-se a ela num sussurro: “Você vê? Nós nos amamos, ainda nos amamos...”

Sua mão desce pela face, e sua palma descansa no travesseiro dela. Está úmido. Seus dedos correm de novo para o rosto dela e agora ele sabe. Num súbito apoiar-se no cotovelo, volta a olhá-la diretamente, face a face: “Você está chorando...”

Olhos fechados, no abandono dos ombros, a resposta dela se perde antes de alcançar o silêncio. Ele insiste: “Por quê? Por quê...?”, e quase não reconhece a voz que lhe diz: “É só isto que nos resta...”

Calmamente ela alcança a beira da colcha, que recolhe em volta dos ombros, lentos passos na direção da lareira; o esperma que lhe desce pelas coxas nunca havia-lhe incomodado: cheiro de terra molhada por chuva de verão, cheiro de semeadura; sempre o sentiu assim. Como as outras mulheres o identificam? Hoje esqueceu.

Sentou-se no tapete, testa sobre os joelhos, o resto do rosto dentro da escuridão da coberta; os olhos, agora abertos, mal percebem o contorno de seu corpo nu encolhido em si mesmo. Sentia as faíscas da lareira soltar pequenos estampidos quebrando o silêncio, pesado, aterrador. Levantou o rosto. Percebeu a chegada do homem, agora sentado bem em frente a ela, de costas para aquela janela retangular, sem cortinas, que se projetava para dentro do jardim. Nu, pés planta contra planta, joelhos afastados, pênis deitado no tapete, ombros tremendo.

Ela continua olhando, bem acima do rosto dele, a nevasca que silenciosamente esbranquiça as vidraças.

“Você sabe, faltam só duas semanas para terminar a gravação, mais uns poucos dias para o lançamento e depois vamos para casa. Prometo.”

Aquele tremor dos ombros era sempre assim quando ele sentia mágoa, incerteza, dúvidas, gesto incontido como uma pergunta dirigida diretamente a ela: “O que eu faço agora?...”

Ela volta a esconder o rosto dentro da coberta. Sabe que as mãos dele estarão desenhando no ar todos os argumentos e suas paixões, todas as promessas e suas paixões, todas as reivindicações e suas paixões...

“Quando voltarmos vou pedir emprestado o barco do meu irmão e vamos passar uns dias na ilha.”

Uma pausa.

“Podemos até casar, depois de tanto tempo, afinal... Quer casar?”

Só o crepitar do resto da lenha entre as cinzas rosadas.

“Mas, por quê? Não pode ser: eu aprendi com você a olhar a pintura. Eu ensinei você a ouvir música. Por que, o que foi? O que é que acabou? Não pode ser!”

Ela tem toda a munição para aquele adeus, mas prefere ser desarmada. Sentada ainda ao lado da lareira, com os olhos fixos nos arbustos do jardim, sente seu ombro e seu braço congelarem contra as vidraças, como se ela realmente estivesse encostada lá, procurando os rododendros azulados que só voltariam a brotar na primavera.

O que dizer, como dizer?... Como fazê-lo entender?...O silêncio basta?

O sótão. As malas no sótão. Amanhã. Terei coragem amanhã?...

20.9.08

O instante antes do beijo

O instante antes do beijo

Ele foi o meu príncipe por mais de mil e um dias e noites, foi um vício secreto, uma droga pesada que me mantinha vivendo num mundo paralelo a este que chamamos de real. Era só no Edu que eu pensava o tempo inteiro, tecendo mentalmente uma história de amor entrelaçada a tantas outras que eu lia ou via no cinema. Agora éramos Cleo e Daniel atracados num beijo ostensivo em praça pública; depois éramos Capitu e Bentinho trocando segredos e carícias ocultas; domingo, no cinema, quando os amantes eram arrancados um do outro pela vida ou pela morte, era por nossas vidas separadas em cidades distantes que eu chorava.

Para mim, nossa história era a mais bonita de todas, mas o Edu não sabia de nada, nem eu era louca de contar a ninguém. A gente só se via nas férias, quando eu viajava para a cidade de meus avós, onde ele também morava. Lá nos encontrávamos sempre por acaso e por toda parte, e esse jogo de encontros casuais e também de desencontros enchia minha vida de aventura e antecipação.

Nos bailinhos de sábado no clube, eu perdia o chão quando ele vinha, sorrindo timidamente, tirar-me para dançar. Ele não tinha idéia do que eu sentia, e eu me esforçava para disfarçar. Dançávamos sem agarração: ele era o cara mais gentil e educado que eu conhecia, até demais. Era tão bonito que doía: tinha os traços de seus antepassados libaneses, uns olhos muito negros e uma barba cerrada que o fazia parecer mais velho que os outros rapazes de 16 e 17 anos da turma.

Num sábado, ele fez uma coisa estranha. Como sabia que eu estudava francês, pediu-me para cantar a música que estávamos dançando. Era “Ne me quitte pas”, com Nina Simone. Não sei onde fui buscar a audácia para dizer, ainda que numa voz relutante e frágil, aquelas palavras loucas no ouvido do Edu:

Moi je t’ouffrirai
Des perles de pluie
Venues du pays
Ou il ne pleut pas

Em pouco tempo, a canção ia me possuindo, me maltratando, ne me quitte pas, ne me quitte pas, eu suplicava, ne me quitte pas. Aquelas palavras, a maneira como Nina Simone as dizia, me abriam as entranhas, e eu sentia que caía numa cilada. Armada por quem, meu Deus? Com seu pedido surpreendente, era o Edu que me arrancava, inadvertidamente, uma confissão de amor? Ou era eu que a entregava, assim bruta e visceral, por não saber mais fingir? Inebriada pela música e pela proximidade de nossas respirações, senti sua mão em minhas costas, trazendo-me para mais junto de si. Acho que estava toda trêmula, mas continuei cantando, com um fiozinho de voz:

Laisse-moi devenir
L’ombre de ton ombre
L’ombre de ta main
L’ombre de ton chien

Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

Naquela noite, o Edu me acompanhou até a casa de meus avós. Caminhamos sem pressa, falando menos que de costume, concentrados em ouvir o som de nossos passos na calçada sobrepondo-se ao canto das cigarras e ecoando na noite. Eu não conseguia pensar. Sentia-me pairando num céu estrelado. Era bom inspirar o ar fresco, sentir o perfume de jasmins, gardênias, rosas e de tantas outras flores que compunham os jardins das casas. Eu não queria chegar nunca e avisei o Edu que meus avós dormiam no quarto da frente, a poucos metros da calçada. Seria preciso sussurrar, era melhor nem falar, para evitar que acordassem.

Então, quando paramos junto ao portãozinho de madeira, senti o perigo de ele me beijar, de não querer me beijar e me desapontar, de pensar que eu esperava que me beijasse agora... Essas idéias aflitas me vararam a mente como balas perdidas, e eu tive que escapar sem vacilar.

Com um movimento costumeiro e rápido, empurrei o portão com o quadril e, num instante, já estava do lado de dentro do jardim. Sorri e acenei para o Edu, depois entrei em casa sem respirar. Precisei ficar um tempo grudada à porta, esperando a tontura passar, ainda inebriada por perfumes e aturdida pelo gesto que não saberia explicar.

O Edu já ia longe.


Concha Celestino
06/09/2008

19.9.08

Sampa 24/01/1998

*um texto antigo, achado no baú e tirado a poeira.


Vejo minha vida correndo sem parar
Tenho o mesmo dia e o mesmo paladar
Sinto que o vento não sopra em minha direção
Mas nadar contra a corrente é a minha vocação

O colorido destas roupas que me vestem
Camuflam a cor cinza de minh'alma
Devaneios estacionam em minha mente
E alucinam desejos de satisfação

Pela sua mão escorre o suor da ansiedade
O medo da falta de equilíbrio na decisão
Sinto não ser um Deus para lhe encaminhar
Mas a sua fé pode lhe trazer alívio

Tenha a alma aberta para suprir suas carências
O humor negativo não faz olhos brilharem
O grito sufocado faz envelhecer
E a miséria é a pobreza da alma


Abreijos

18.9.08

Hipoglicemia


Sentindo o ácido da estupidez
Gerado pela sonolência do raciocínio
Agora eu vejo o quanto é amargo
Agora eu sinto a distância que está daqui
Acometido por sudorose excessiva

A acidez vai mergulhando pelas entranhas
Se agarrando com unhas de gatos
A cada salivar amargo engolido
Perfurando o ventre, minando as forças
Restam tremores

Procurando encontrar a maneira de perpetuar
A tranquilidade no sorriso, a confiança no olhar
Andando a passos tão cambaleantes e incertos
Cometidos pelo baixo nível de açucar
Quase que rastejo pelas paredes
Me amparando para não beijar o chão
E desfigurado nem ao espelho se reconhecer

Mas o olhar diluído, duplo, cíclico
Se volta para você oferecendo brilho
Almejando, o corpo que cai,
Cair em seus braços macios, porém, escorregadios
E do seu colo visceral
Vir a emergir desse coma latente
Restam uma fome aguda de amar


*inspirado na estrela que brilha no meu pedaço de ceú.

Abreijos

Uma história de amor


Estava em um encontro de oração e, quando as luzes se acenderam, olhei para o lado e vi um jovem. “Nossa como ele é lindo!” pensei.
Passaram-se vários dias, quando duas amigas me falaram:
-Conhecemos um rapaz, que é novo por aqui, mas é a sua cara, você precisa conhecer.
Quando elas o apresentaram... Para minha surpresa era o mesmo rapaz que eu havia visto na oração. Fomos apresentados, mas até aí nada de mais... Com sinceridade o achei sério de mais, nada a ver comigo.
Mas... não é que gostei dele e ele de mim!
Depois de muitos conflitos, indecisões, incertezas, medos, (intrigas da oposição).
Entre idas e vindas, a mais ou menos dois anos o tenho ao meu lado e só de vê-lo ainda sinto aquele friozinho na barriga, fico desconsertada com o seu olhar, não me canso de admirar. Adoro seu carisma, sua inteligência, seu jeito de sorrir, brincar, me fazer sorrir. Tenho certeza de que ele nasceu para me fazer feliz!

Patrícia Santos